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CONSTELAÇÕES FAMILIARES EM CASOS DE PSICOSE
Gunthard Weber e Diana Drexler
1. Sobre a teoria e a técnica do trabalho sistêmico com
constelações
O trabalho com constelações familiares é um procedimento
psicoterapêutico relativamente recente e controvertido. Ainda
menos numerosas são até agora as experiências realizadas através
dessa abordagem com pessoas que exibem comportamento psicótico.
Tais experiências, contudo, são animadoras a ponto de justificar
nosso relato a seu respeito. Dispensamos-nos aqui de apresentar
os principios que fundamentam esse trabalho, (“ordens do amor”,
consciência pessoal e consciência do grupo familiar, etc).[1]
Apresentamos apenas uma breve introdução, dedicando maior
atenção aos aspectos que nesse trabalho com pacientes com
diagnósticos de psicose nos aparecem como especialmente
importantes.
1.1 O desenvolvimento do trabalho com constelações familiares
A técnica das constelações familiares foi desenvolvida em seus
elementos básicos por Bert Hellinger, sobretudo nos anos 80 [2].
Desenvolveu-se e expandiu-se rapidamente no espaço cultural de
lingua alemã e, nos últimos anos, também em escala
internacional. Tem suas raízes na abordagem da terapia familiar
através de várias gerações [3]. Abordagens da terapia familiar
orientadas para o crescimento já utilizavam há mais tempo
representações espaciais para entender constelações de
relacionamentos e para estimular modificações.[4] Depois que
Bert Hellinger entrou em contato com representantes da terapia
familiar, nos Estados Unidos, e com o trabalho de escultura
familiar, na Alemanha, ele começou a condensar insights sobre a
dinâmica familiar, - sobretudo os que tinham caráter estrutural
e envolviam várias gerações -, com procedimentos da análise
transacional [5], numa terapia breve de grupo, sob a condução de
um diretor. Essa terapia ele denominou “Familien-Stellen”
(método de “colocar” ou de “constelar” famílias). Esse trabalho
era complementado, nas assim chamadas “rodadas”, por
intervenções hipnoterapêuticas ou outras, de que se valia
Hellinger, através do humor, da confrontação ou da narração de
histórias para quebrar padrões rotineiros de pensamento e
estimular novas alternativas de ação. Infelizmente, essa técnica
de rodadas, onde os participantes relatavam, cada um por seu
turno, seus sentimentos e suas questões, teve de ser abandonada
quando Bert Hellinger passou a trabalhar com grupos muito
numerosos.[6]
1.2 Comprensão do sistema e dos sintomas
Numa constelação são levados em conta todos os membros de um
sistema familiar no âmbito de três gerações, de maneira a
incluir os vivos e os mortos. Todos os membros da família tomam
parte numa ordem básica[7] à qual estão permanentemente
vinculados. Essa ordem básica inclui, por exemplo, o direito de
todos a pertencer ao sistema e a precedência dos que vêm antes
sobre os que vêm depois. As famílias onde os sintomas aparecem
estão frequentemente em “desordem” no que toca a essas leis.
Os sintomas que estejam condicionados por implicações sistêmicas
sistêmicas manifestam a existência de um profundo amor
resultante do vínculo, uma ligação inconsciente do indivíduo com
seu grupo de origem. Isto faz com que alguns repitam os destinos
de outros e queiram, em lugar deles, assumir algo de pesado,
expiar ou até mesmo morrer. Tal necessidade de compensar se
radica num pensamento mágico de caráter infantil, já que tal
atitude não tem o poder de redimir essas pessoas nem de aliviar
ou de anular seus destinos. Outra base para o desenvolvimento de
problemas é a perda de conexão com as fontes dos laços
familiares. Isto acontece, por exemplo, quando membros da
família não são respeitados ou são esquecidos. Além da
implicação sistêmica, devem ser ainda considerados, na geração
de dificuldades psíquicas, os aspectos associados à evolução
pessoal, por exemplo, a interrupção do movimento precoce da
criança, dirigido geralmente para a mãe. No presente trabalho
focalizamos preferencialmente as dinâmicas sistêmicas, dando
menos espaço ao significado da história individual da vida e do
processo da aprendizagem.
1.3 O processo da constelação
Em nossos seminários, que duram de dois dias e meio a quatro
dias, trabalhamos com grupos de 12 a 14 participantes e com um
máximo de 10 observadores participantes. Na constelação familiar
cada participante do grupo monta espacialmente sua imagem
interna de um dos seus sistemas (o de sua família de origem ou
da atual, ou ainda de suas relações de trabalho), com a ajuda de
representantes, escolhidos entre os integrantes do grupo. Esses
representantes geralmente possuem pouquíssimas informações
prévias sobre as circunstâncias da vida e da história das
pessoas representadas. O terapeuta interroga os representantes
sobre suas sensações e sentimentos nos lugares que ocupam. As
percepções dos representantes fornecem indicações importantes
sobre as dinâmicas familiares e as conexões sistêmicas, pois é
incrível como refletem exatamente, muitas vezes, as pessoas
representadas, que não são conhecidas pelos representantes. O
dirigente do grupo tenta a seguir mudanças de posição para os
interessados, buscando, na medida do possível, o „melhor“ lugar
para cada um do sistema. Quando se consegue isto, o terapeuta
geralmente introduz o próprio cliente em seu lugar (até então
ocupado por seu representante). Em conexão com determinadas
frases[8] que diz às pessoas importantes de suas relações, ele
muitas vezes experimenta de novo uma dor antiga e emoções que
aliviam, e ganha novas perspectivas. A “imagem da solução”,
quando ele a consegue acolher e interiorizar, desenvolve nele
frequentemente efeitos que perduram por longo tempo.
1.4 A inserção da constelação familiar no processo
terapêutico
Evolução progressiva ou experiência de iluminação?
A forte expansão do trabalho com constelações tem despertado
junto ao público, de um lado, expectativas fora da realidade e,
de outro, críticas de simplificação sem seriedade. De acordo com
nossas experiências, o trabalho da constelação familiar,
justamente com pacientes que exibem comportamento psicótico, só
se recomenda no contexto de uma relação terapêutica e com uma
acurada preparação. Os pacientes se inscrevem para os seminários
de forma autônoma e sob a própria responsabilidade, mas
geralmente são advertidos dessa possibilidade por seus
terapeutas, que frequentemente também os acompanham nos
seminários. Não devem apresentar sintomas psicóticos agudos.
Muitos pacientes comparecem inicialmente a seminários, uma vez
ou várias, como observadores participantes, não fazendo
incialmente suas próprias constelações mas presenciando as de
outros ou delas participando como representantes. Os terapeutas
que lhes recomendam o trabalho ou os acompanham nele deveriam
conhecer o trabalho com as constelações e suas premissas, e o
terapeuta que conduz a constelação deveria ter experiência com
pacientes desses grupos de diagnóstico. Em seguimento a uma
constelação familiar podem eventualmente surgir no paciente
reações depreciadoras ou agressivas e até mesmo episódios
psicóticos. Tais reações, que inicialmente interpretávamos como
sinal de insucesso, hoje encaramos como medidas distanciadoras,
que visam restabelecer a autonomia do paciente para poder lidar
com o intenso desejo de estar próximo e de ser olhado, que se
reavivou nesses seminários e foi satisfeito apenas por um curto
período de tempo. Ultimamente, justamente em seguida a tais
“pioras”, temos recebido com frequencia excelentes retornos de
terapeutas relatando desenvolvimentos positivos depois de
constelações familiares.
2. Elementos terapêuticos do trabalho com constelações
familiares
2.1 Esclarecimento da solicitação
Um fator importante do seminário de constelações é o
esclarecimento do que se deseja do terapeuta. Quanto mais
concretamente forem formuladas as questões e os objetivos, tanto
melhor se poderá decidir qual corte do sistema deverá ser
representado ou levado em consideração. A ampla dispensa de uma
anamnese detalhada e o enfoque dirigido para soluções e recursos
choca-se, às vezes com resistências, justamente por parte de
pacientes com longa história de tratamento, como se estes
tivessem de “defender” seu status de doentes e justificar seus
problemas. Contudo, se os pacientes com diagnósticos de psicose
recebem nos seminários o mesmo tratamento como todos os demais,
eles logo mostram, muitas vezes, incríveis habilidades sociais e
geralmente se integram em problemas ao grupo.
2.2 A representação
O que se exige dos representantes nas constelações é que se
desprendam em larga medida de suas histórias pessoais, que
percebam “sem intenções” e comuniquem as reações corporais,
sentimentos ou sensações que emergem nos lugares que ocupam como
representantes. Esta exigência de deixar “de fora” a própria
história e as hipóteses de uma psicologia corriqueira (por
exemplo, „Aquela pessoa está longe de mim - com ela não devo ter
muito a ver), e de se entregar sem reservas ao que se sente,
oferece a cada participante um exercício de percepção que no
decurso do seminário vai sendo cada vez melhor dominado. Tem-nos
surpreendido, repetidas vezes, a maneira diferenciada e sensível
que exibem, como representantes, pacientes que antes
apresentavam um comportamento psicótico. Alguns ainda precisam
de uma ajuda inicial, tanto para entrarem num papel quanto para
se “despedirem” dele, mas muitos vão apreciando cada vez mais a
possibilidade de vivenciar papéis e lugares totalmente
diferentes nas famílias. Numa constelação é possível perceber
onde esses pacientes frequentemente encontram problemas: em
viver relações intensas e em seguida voltar a si mesmos (quando,
depois de uma constelação, abandonam os papéis que
representavam).
2.3 A vivência da imagem
Através do método de posicionar membros da família, com a ajuda
de representantes, manifesta-se um aspecto vivencial que, à
exceção do trabalho com esculturas familiares, raramente aparece
em outras abordagens terapêuticas: a experiência subjetiva
direta, realizada simultaneamente em muitos canais sensórios,
envolvendo o lado fisiológico, o expressivo-motor, o emocional e
então também o cognitivo. Através dessa experiência direta que
envolve o corpo e os sentidos, as imagens consteladas têm muitas
vezes fortes efeitos emocionais e com isto podem ser revividas e
trabalhadas. O que se procura, em termos de imagem sensível, é
um lugar melhor para o protagonista. As mudanças nas sensações
corporais e nas emoções dos representantes e do próprio cliente
servem de instrumentos para validar a solução. Na imagem da
solução ganham um lugar informações e pessoas até então
excluídas. Quando o processo da constelação, com a imagem da
solução, é significativo para o cliente, ele ativa novas formas
de ver e de proceder em constelações familiares até então
experimentadas como problemáticas. Como num rito de passagem, os
passos individuais (as imagens intermediárias) são condensados
numa experiência que se pode apreender e compreender.[9]
3. Experiências já resultantes do trabalho de constelações
com pessoas com diagnóstico de psicose
Em contraposição às teorias e procedimentos de abordagens
terapêuticas estabelecidas, exaustivamente formuladas e
diferenciadas através de decênios, o trabalho com constelações,
especialmente com pacientes de psicoses, só apresenta algumas
experiências iniciais.[10] Essas experiências indicam que
determinados padrões de relacionamento e determinadas dinâmicas
sistêmicas aparecem mais frequentemente em sistemas com
pacientes de psicose do que em outros sistemas. Isto não implica
em afirmar que esses padrões estejam condicionando o
aparecimento de psicoses. Entretanto, podemos verificar que
processo de trazê-los à luz e resolvê-los através das
constelações frequentemente influencia positivamente e de forma
duradoura o comportamento dos envolvidos.
Descrevemos a seguir algumas dessas características e dinâmicas
de relacionamento em pacientes com diagnoses de formas
esquizofrênicas, inclusive alguns exemplos de casos.
3.1 Fragilidade na diferenciação entre o „eu“ e os „outros“.
Nestas constelações, com mais frequência e de modo mais drástico
do que em outras, os representantes expressam percepções que,
num sentido mais amplo, se relacionam ao tema da „diferenciação
entre si mesmo e outras pessoas no sistema“. Os representantes
se confundem com outros, sentem-se enredados e ligados como se
fossem siameses e carecem de um espaço próprio perceptível; ou
então se sentem colocados inteiramente diante do sistema ou para
fora dele. Exprimem-se com marcada ambivalência, oscilam entre
sentimentos de estarem fundidos, amarrados e obrigados,
desejando ter autonomia e espaço livre, ou então se apresentam
desorientados, desesperados ou mudos. Estas manifestações de
participantes „ingênuos“ do curso em posições de representantes
correspondem às descrições da dinâmica psíquica nas abordagens
da terapia individual.[11] Nas constelações pode-se mostrar com
frequencia que esses estados psíquicos perturbadores, opacos e
quase insuportavelmente contraditórios possuem o seu equivalente
em acontecimentos e processos relacionais obscuros, traumáticos
e cercados de segredos do sistema familiar, em que os
interessados estão implicados de forma muitas vezes
inconsciente. Trata-se aí de dinâmicas que atuam através de
gerações. Nas constelações, o comportamento psicótico se
manifesta como um esforço ativo para dominar inconciliáveis
tensões e oposições, de caráter interpessoal e intrapsíquico.
3.2 Ligação profunda e identificação
Denominamos „identificada“ uma pessoa que, de modo inconsciente,
está implicada com aspectos de um ou de vários membros da
família e tenta imitar ou superar aspectos da vida dele(s).
Segundo nossa experiência, tais identificações surgem
principalmente quando membros do sistema tiveram um destino
especial, ou quando não são respeitados ou foram excluídos.
Membros que se seguem no sistema familiar caem então em
contextos de relacionamento em que muitas vezes, de forma
inconsciente, repetem aspectos do destino dessa(s) pessoa(s) ou
sentem a necessidade de resolver algo em seu lugar. Em famílias
com formações sintomáticas esquizofrênicas, encontramos
frequentemene formas especiais de identificação que descrevemos
a seguir.
3.2.1 Identificação transsexual
Exemplo 1:
A mais velha de duas filhas desenvolvera um comportamento
psicótico ao terminar seus estudos superiores. Apaixonara-se por
um de seus professores, mas também não estava certa de que ela
própria não fosse um homem, e durante semanas apresentou-se em
suas aulas com trajes masculinos. Jamais conseguira trabalhar em
sua profissão. Na constelação, sua representante se postou ao
lado da mãe e o pai afirmou que não tinha nada a ver com aquilo.
Através de perguntas apurou-se que a mãe tivera um noivo e que o
casamento fora impedido pelas injunções da guerra. Durante toda
a sua vida, ela rejeitara seu marido, desvalorizando-o em
presença das filhas e também idealizando o noivo por sua melhor
instrução. A cliente tinha cursara a mesma disciplina do antigo
noivo da mãe e, como ela própria dizia, tomara o lugar dele
junto da mãe.
Ela se sentiu liberada quando o noivo foi introduzido na
constelação e quando ela disse, tanto a ele quanto à sua mãe,
que nada tinha a ver com ele e que só queria viver a própria
vida e aceitar-se plenamente como mulher. Em seguida colocou-se
junto do pai e disse-lhe que ele era o responsável pela mãe.
Exemplo 2:
Um paciente, que vinha sendo diagnosticado como doente psíquico
crônico e que fora criado num círculo de muitas mulheres, após
um seminário assumiu-se abertamente como homossexual. A partir
daí passou a mostrar sintomas bem mais raramente, completou com
acompanhamento terapêutico uma exigente formação e há dois anos
exerce sua profissão.
3.2.2 Identificações duplas
Particularmente pesada é a identificação simultânea com dois
excluídos. Uma forma especial dela é a identificação simultanea
com vítima(s) e autor(es).
Um exemplo:
Uma participante de um seminário, de cerca de 50 anos, com uma
carreira psiquiátrica de muitos anos, tinha um pai de mãe
solteira, que entrou na policia especial nazista e mais tarde
foi vigia num campo de concentração. Através de perguntas,
apurou-se durante a constelação que o pai dele era judeu e que
nada se sabia sobre seu destino. Com isto a paciente passou a
compreender melhor seus sintomas, que já duravam anos, de ser
simultaneamente simultaneamente perseguida e perseguidora.[12]
Essa dinâmica foi por nós encontrada diversas vezes, por
exemplo, nos chamados doentes mentais transgressores. Seja
frisado, neste contexto, que com muita frequência tomamos à
letra conteúdos de manias, que se revelam carregados de sentido.
Se alguém se sente perseguido ou envenenado, perguntamos: quem
na família foi perseguido ou envenenado? Ou, se alguém sente
compulsão de lavar-se, perguntamos: quem na família precisava
lavar-se? Não dispomos aqui do espaço necessário para entrar
mais fundo nesta matéria.
3.3 Segredos e tabus
Em constelações de pacientes de psicoses pudemos verificar
repetidas vezes que provocavam perturbação nesses pacientes
relacionamentos confusos e mal definidos, como paternidade
obscura, adoções mantidas em segredo, ocultação de um irmão
gêmeo que morreu no parto ou durante a gravidez,[13] causas de
morte obscuras ou ocultadas (por exemplo, um suicídio
apresentado como um acidente). Devido a sentimentos de lealdade,
os pacientes frequentemente não se atrevem a comunicar as
incertezas que experimentam, fazer perguntas sobre elas ou
investigá-las.
3.4 Sequelas de culpa e de violência na família
Em famílias onde há psicoses parece também haver um número bem
maior de segredos de família e de tabus relacionados com atos de
violência, crimes e injustiças de que participaram, como autores
ou como vítimas, membros da famía (geralmente de gerações
precedentes). A culpa cometida ou experimentada geralmente não
era encarada nem exteriorizada.
Ilustro com um exemplo de um seminário de constelações
familiares:
Um homem de 33 anos, após uma grave tentativa de suicídio,
procurou-me para uma terapia. Contou que nos últimos meses,
quando estava se separando de sua namorada, retraiu-se de todo
contato social e desenvolveu fantasias de perseguido e de
perseguidor. Finalmente abriu a própria veia jugular e só foi
salvo devido a circunstâncias felizes. Na época do início da
terapia não mostrava sintomas psicóticos agudos, mas todos os
sinais de uma grave crise de identidade e de autovalorização.
Estava fortemente deprimido e padecia de sentimentos massivos de
culpa, insuficiência e fracasso.Experimentava uma forte
diminuição de seus impulsos e um retardamento motor, falava por
monossílabos e estava grandemente limitado em sua
expressão.Durante um ano de acompanhamento psicoterapêutico
aconteceram vários episódios de crise e conversas em família com
o pai e o irmão mais novo, que sempre exprimiam medo de uma
recaída e pela vida dele. Ele se estabilizou, mas voltou a viver
com os pais e cortou quase todo contato com o mundo exterior.
Ele mesmo se queixava de falta de acesso emocional a si mesmo e
à tentativa de suicídio, experimentava-se como se estivesse
cortado de alguma coisa e não „sentisse“ mais a si mesmo.
Sua participação num seminário de constelações familiares tinha
o objetivo principal de retomar contato com outros
(interessados). No decurso do seminário ele constelou sua
família de origem (os pais, ele próprio e um irmão mais novo).
Os representantes de todos eles disseram que tinham pouco
contato com os próprios sentimentos. Como o representante do
pai, na constelação da família, se virou e olhava para fora,
interrogamos o cliente sobre destinos ou acontecimentos
especiais em sua família de origem. Apuramos que dois de seus
irmãos tombaram na guerra e que seu avô voltara para casa ferido
por um tiro na barriga. Fizemos com que o cliente incluísse na
constelação os dois tios e o avô. Ele reverenciou cada um deles.
Os representantes dos tios se sentiram olhados e honrados em seu
destino, mas o representante do avô disse que não se devia
reverenciá-lo pois cometera algo muito grave. Paralelamente já
se tinham modificado antes os sentimentos dos demais
representantes da família, de forma incomum e dramática. Todos
eles se afastaram do representante do avô e mostravam um forte
medo. Respondendo às perguntas, o cliente só pôde informar que o
avô tinha sido um participante entusiasta da guerra.
Experimentalmente foram então introduzidos representantes de
vítimas da guerra, que se deitaram no chão. Sua presença
provocou no representante do cliente uma veemente compaixão,
enquanto o representante do avô permaneceu frio e distante. O
representante do cliente se inclinou diante das vítimas,
despediu-se também do avô, que fora colocado à parte da família,
e deixou com ele a culpa. Em seguida foi colocado ao lado do
pai.
Depois da constelação o cliente contou que da herança do pai ele
tinha pedido para si a mochila de guerra (na ocasião, tinha sete
anos). Essa mochila continha, entre outros objetos de uso, o
livro de Hitler „Mein Kampf“ (Minha Luta) e uma velha pistola.
Foi com essa arma que ele tentou suicidar-se e só recorreu à
faca quando a pistola falhou. Foi profundamente tocante, para o
cliente, sua vivência num grupo onde nem ele nem seu avô foram
moralmente julgados, e no qual ele, de forma comovente, se
dirigiu a seu pai e seu pai a ele. Por desejo próprio, ele
terminou a terapia, depois umas cinco sessões adicionais,
separadas por intervalos mais longos.
Dois anos depois, apareceu no consultório do terapeuta com um
ramo de flores nas mãos. Relatou que tinha prestado com êxito
seus exames finais como engenheiro, assumido um emprego e
iniciado uma nova relação. Sentia que tinha „aterrissado bem na
vida“. Disse que o seminário da constelação tinha sido a coisa
mais difícil que conseguira na vida, e que fora incrivelmente
importante para ele.
3.5 Outros dilemas que pesam
Certas situações se tornam também insustentáveis para tais
pacientes quando, além das implicações sistêmicas, se defrontam
com vários dilemas de relacionamento. Podem estar colocados, por
exemplo, entre duas pessoas relacionadas que estejam em conflito
total entre si (por exemplo, seus pais ou a mãe e uma avó que
também more em casa). Pode ser ainda que alguém tenha colocado
para eles expectativas comportamento totalmente contraditórias e
inconciliáveis, ou que várias pessoas ao mesmo tempo lhes tenham
colocado expectativas diferentes e estressantes.[14]
Isto aconteceu, por exemplo, com uma paciente simultanemente
identificada com agressora e vítima. Na constelação ela ficou em
posição transversa entre a representante da mãe e a da avó
paterna, que se odiavam mutuamente. Tais triangulações
adicionais marcantes dessas crianças foram frequentemente
encontradas por nós nas constelações. Suas soluções
proporcionaram claros alívios adicionais. Quando os pais
provinham de países diferentes ou pertenciam a diferentes
comunidades religiosas, isto trazia aos filhos novos dilemas.
4. Conclusão
Requer-se uma grande experiência terapêutica para se lidar
cuidadosamente com as “informações” reveladas nas constelações,
tomando-as, sim, a sério, não porém excessivamente à letra.
Talvez mais do que em outros métodos, existe aqui, conforme a
formação e a mentalidade do praticante, o perigo da
simplificação, de uma abreviação sem seriedade e da manipulação.
Além disto, cada família tem o direito de manter seus segredos.
Pode ser útil que, depois de uma constelação, familiares
acrescentem às percepções, até então tomadas como “loucas”,
informações que esclareçam os acontecimentos já registrados.
Quando, porém, aquilo que emerge nas constelações passa a ser
considerado como a única verdade válida, a confusão e as manias
apenas ficam piores. Em nossa apreciação, o trabalho da
constelação familiar, com sua perspectiva sistêmica que abrange
gerações e a utilização da representação espacial, é uma
complementação e um prolongamento essencial do espectro
terapêutico no tratamento de pessoas que exibem um comportamento
psicótico. Nossas experiências apoiam as tentativas de pessoas
versadas em assuntos psíquicos, no sentido de buscar um
entendimento de seus sintomas aparentemente incompreensíveis
como “mensagens do mundo interior”[15]. Nossa tendência é de
interpretá-los, antes, como indicações de implicações sistêmicas
até então não compreendidas.
Tradução: Newton Queiroz
Rio de Janeiro, julho 2002
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[1] Ver a respeito Weber (1993).
[2] ver Weber (1993); Hellinger (1994), (2001), Ulsamer (2001),
Nelles (2002).
[3] ver Boszormenyi-Nagy e Spark (1972), Stierlin (1981) e no
psicodrama de Moreno (Moreno 1959).
[4] ver Satir (1972), Scheflen (1972) , Duhl et al. (1973), Papp
(1976).
[5] ver Berne (1972).
[6] Para conhecer o trabalho com rodadas, recomendamos a edição
de vídeo “Wie Liebe gelingt” (Como o amor dá certo),
Carl-Auer-Systeme Verlag, Heidelberg.
[7] Ver também Hildenbrand (2002).
[8] Ver Hellinger (1995).
[9] Ver Baxa (2001).
[10] Ver Langlotz (1999), Hellinger (2001), Ruppert (2002).
[11] Ver Mentzos (19 ).
[12] Ver também relatos sobre famílias alemãs onde familiares
foram envolvidos em ações criminosas na época nazista, ou foram
vítimas de crimes: Hellinger (1998 und 2001a), Ruppert (2002).
[13] Ver também Mayer (1998).
[14] Ver também Simon et al. (1989) sobre dissociação sincrônica.
[15] Ver Stratenwerrth e Bock (1998).
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